Estupidez
Luis Fernando Veríssimo
Estou neste ofício de escrever, assinar e publicar o que eu penso há mais de 30 anos. Comecei no ano de 69 — do século XX, minha senhora — quando a gente precisava dizer, ou tentar dizer, mais nas entrelinhas do que nas linhas, e ter sempre à mão a tradicional crônica sobre o sexo dos anjos para substituir a que não deixavam sair. Não posso me queixar: enquanto havia jornalistas sendo presos e torturados pelas suas opiniões, eu e outros só sofríamos o incômodo de ter que dissimulá-las. Com o fim da censura oficial, o risco de ser punido por ter sido entendido bem demais foi substituído pelo risco de ser mal-entendido, mas aí a culpa era só do cronista e da sua falta de clareza, e a única punição a censura do leitor.
Em mais de 30 anos dando palpites, dei muitos errados, me contradisse e fui pouco claro de várias maneiras. Já me chamaram de fã do Saddam Hussein e de americanófilo, de comunista e de agente da CIA, de pseudopopulista e de elitista, até de mau colorado. Mas confesso que uma coisa que nunca imaginei foi um dia ser chamado de anti-semita.
Não é um epíteto que se lance, ou que se receba, como apenas outra ofensa gratuita. O anti-semitismo não é só sinônimo de estupidez, como qualquer preconceito. É uma estupidez com uma história específica, dois mil anos de obscurantismo e desumanidade, um aleijão da civilização ocidental que culminou nos campos de extermínio nazistas. Não se chama alguém de anti-semita sem pesar todas as inferências da acusação, sem pensar no que se está realmente dizendo do acusado. No caso, invocar a minha história familiar e as minhas afinidades culturais seria uma defesa irrelevante: minha posição quanto à questão do Oriente Médio é a mesma de muitos amigos judeus, de organizações judaicas como a Congregação Israelita Paulista, que no mês que vem trará Shimon Peres e o palestino Saeb Erekat a São Paulo para discutir o que os moderados podem fazer pela pacificação da região, de intelectuais judeus no Brasil e no resto do mundo, de jornais como o maior de Israel, o “Haaretz” e, obviamente, da oposição à direita dentro de Israel. Pelo estranho raciocínio que equipara críticas à política intransigente, tão radical quanto a dos radicais do outro lado, de um governo — transitório como todos os governos numa democracia — a aversão a uma etnia inteira, todos estes deveriam ser chamados de anti-semitas. Quando o seu empenho, mais do que o dos radicais, é pela paz e a segurança de Israel.
Infelizmente, está se tornando um hábito entre nós responder a opiniões que desagradam não com outras opiniões, mas com a difamação.
Outro Instante
Textos legais
25.4.03
15.4.03
Carta de um ganhador do Oscar
Michael Moore
Caros amigos,
Parece que o governo Bush terá sucesso em colonizar o Iraque em algum momento dos próximos dias. Esta é uma tolice de grande magnitude — e pagaremos por isso pelos próximos anos. Não valeu a vida de um único garoto americano de uniforme, sem falar dos milhares de iraquianos que morreram, e a eles dedico minhas condolências e orações.
Mas, onde estão todas aquelas armas de destruição em massa que foram a desculpa para essa guerra? Ahá! Há muito a se dizer sobre tudo isso, mas vou guardar isso para outra oportunidade.
O que mais me preocupa nesse momento é que todos vocês — a maioria dos americanos que não apóia essa guerra — não fiquem calados ou sejam intimidados pelo que será saudado como uma grande vitória militar. Agora, mais do que nunca, as vozes da paz e da verdade têm de ser ouvidas. Recebi muita correspondência de pessoas que estão com um profundo sentimento de desespero e acham que suas vozes foram afogadas pelos tambores e bombas do falso patriotismo. Alguns estão com medo de retaliações no trabalho ou na escola ou na vizinhança porque eles advogaram publicamente a paz. Eles ouviram diversas vezes que não é “apropriado” protestar uma vez que o país está em guerra, e que sua única obrigação é “apoiar os soldados”.
Posso dividir com vocês o que tem acontecido comigo desde que usei meu tempo no palco do Oscar semanas atrás para falar contra Bush e essa guerra? Espero que, ao lerem o que estou prestes a contar, vocês se sintam um pouco mais encorajados a fazer com que suas vozes sejam ouvidas em qualquer oportunidade que lhes seja concedida.
Quando “Tiros em Columbine” foi anunciado como o vencedor do Oscar de melhor documentário na cerimônia da academia, a platéia se levantou. Foi um grande momento, algo que sempre irei guardar no coração. Eles estavam de pé e celebrando um filme que diz que nós, americanos, somos um povo singularmente violento, que usa nosso maciço acúmulo de armas para nos matar uns aos outros e para apontar para muitos países em todo o mundo. Eles estavam aplaudindo um filme que mostra George W. Bush usando temores fictícios para aterrorizar o público para que este concedesse a ele qualquer coisa que pedisse. E eles estavam honrando um filme que declara o seguinte: a primeira Guerra do Golfo foi uma tentativa de reinstalar o ditador do Kuwait; Saddam Hussein foi equipado com armas dos Estados Unidos; e o governo americano é responsável pelas mortes de meio milhão de crianças no Iraque na última década devido a sanções e bombardeios. Este era o filme que eles estavam festejando, este era o filme em que eles tinham votado, e, então, decidi que era isso que eu deveria lembrar no meu discurso.
E, assim, disse o seguinte no palco do Oscar:
“Em nome dos nossos produtores, Kathleen Glynn e Michael Donovan (do Canadá), gostaria de agradecer à Academia por este prêmio. Convidei os outros indicados para a categoria de melhor documentário para subirem ao palco comigo. Eles estão aqui em solidariedade porque gostamos de não-ficção. Gostamos de não-ficção porque vivemos em tempos fictícios. Vivemos num tempo no qual os resultados fictícios de uma eleição nos deram um presidente fictício. Estamos agora fazendo uma guerra por motivos fictícios. Mesmo que seja a ficção das fitas adesivas (para selar janelas) ou os ‘alertas laranjas’ fictícios, somos contra essa guerra, senhor Bush. Tenha vergonha, senhor Bush, tenha vergonha. E, sempre que se tem o Papa e as Dixie Chicks contra você, seu tempo está acabando”.
Enquanto falava, algumas pessoas na platéia começaram a aplaudir. Isto imediatamente fez com que um grupo de pessoas no balcão começasse a vaiar. Então aqueles que estavam apoiando as declarações começaram a gritar com quem estava vaiando. O “Los Angeles Times” relatou que o diretor do show começou a gritar para a orquestra “música! música!” para me cortar, então o conjunto obedientemente iniciou uma canção e meu tempo estava acabado. (Para mais informações sobre o por quê de eu ter dito o que disse, pode-se ler o artigo que escrevi para o “Los Angeles Times”, mais outras reações de outros lugares do país no meu site: www.michaelmoore.com).
No dia seguinte — e nas semanas subseqüentes — os especialistas de direita e os garotões dos programas de rádio pediram a minha cabeça. Então, todo esse tumulto me causou danos? Eles tiveram sucesso em me “silenciar”?
Bem, dêem uma olhada nos “efeitos colaterais” do meu Oscar:
No dia seguinte ao que critiquei Bush e a guerra na festa do Oscar, o público de “Tiros em Columbine” nos cinemas em todo o país aumentou 110% (fonte: Daily Variety/BoxOfficeMojo.com). Na semana que se seguiu, o faturamento da bilheteria subiu incríveis 73% (Variety). É, no momento, o lançamento comercial em cartaz há mais tempo nos EUA. São 26 semanas seguidas e continua prosperando. O número de salas que está exibindo o filme desde o Oscar AUMENTOU, e já superou o recorde anterior de bilheteria de um documentário em quase 300%.
No dia 6 de abril, “Homens brancos estúpidos” (último livro de Moore) voltou ao primeiro lugar na lista de mais vendidos do “New York Times”. Aquela foi a 50ª semana em que o livro estava na lista, oito delas no primeiro lugar, e marca sua quarta volta para a primeira posição, algo que praticamente nunca aconteceu.
Na semana seguinte ao Oscar, meu site teve de dez a 20 milhões de acessos POR DIA (num dia ele teve mais acessos do que o da Casa Branca!). A caixa de correio tem sido esmagadoramente positiva e encorajadora (e as mensagens de ódio têm sido hilárias!).
Nos dois dias seguintes ao Oscar, mais pessoas fizeram a pré-compra do vídeo “Tiros em Columbine” na Amazon.com do que do vídeo que recebeu o Oscar de melhor filme, “Chicago”.
Na primeira semana de abril, consegui o financiamento para meu próximo documentário, e me ofereceram um espaço na televisão para fazer uma versão atualizada de “TV Nation”/“The awful truth” (TV Nação/A terrível verdade).
Digo tudo isso para vocês porque quero contra-atacar uma mensagem que é dita para nós todo o tempo — que, se você aproveita uma chance para falar publicamente de política, você se arrependerá para sempre. Isso irá causar danos de alguma forma, normalmente em termos financeiros. Você pode perder seu emprego. Outros podem não contratá-lo. Você perderá amigos. E mais e mais e mais.
Pegue como exemplo as Dixie Chicks. Tenho certeza de que vocês todos já escutaram que, porque a cantora da banda mencionou o fato de estar envergonhada por Bush ser de seu estado natal, o Texas, as vendas de seu CD “despencaram” e estações de rádio do país estão boicotando as músicas do grupo. A verdade é que suas vendas NÃO caíram. Na primeira semana de abril, depois de todos esses ataques, o CD continua na posição número um da Billboard e, de acordo com a “Entertainment Weekly”, nas paradas pop durante toda essa confusão as Dixie Chicks SUBIRAM da sexta para a quarta posição. No “New York Times”, Frank Rich relata que tentou conseguir um ingresso para QUALQUER das próximas apresentações das Dixie Chicks mas não conseguiu porque eles estavam completamente esgotados. Sua canção “Travelin’ soldier” (uma bonita balada antiguerra) foi a música mais pedida na internet semana passada. Elas não sofreram qualquer dano — mas isso não é o que a mídia quer que vocês acreditem. Por que isso? Porque não há nada mais importante agora do que manter as vozes divergentes — e aquelas que ousassem fazer perguntas — QUIETAS. E que forma melhor do que tentar e tirar da praça alguns artistas com um pacote de mentiras para que o José e a Maria normais captem a mensagem de modo alto e claro: “Uau, se eles podem fazer isso com as Dixie Chicks ou com o Michael Moore, o que fariam com euzinho aqui?” Em outras palavras, cale a maldita boca.
E isso, meus amigos, é o propósito desse filme que acabou de ganhar o Oscar — como aqueles que estão no poder usam o MEDO para manipular o público e fazê-lo agir da forma como devem agir.
Bem, as boas notícias — se pode haver quaisquer boas notícias esta semana — são que não apenas eu e outros não fomos silenciados, como nos reunimos a milhões de americanos que pensam do mesmo modo que nós. Não deixem que os falsos patriotas os intimidem a acertarem a pauta e os termos do debate. Não seja derrotado pelas pesquisas de opinião que mostram que 70% das pessoas está a favor da guerra. Lembrem-se que aqueles americanos que foram pesquisados são os mesmos americanos cujos filhos (ou os filhos dos vizinhos) foram enviados para o Iraque. Eles temem pelos soldados e são intimidados a apoiar uma guerra que eles não querem — e querem ainda menos ver seus amigos, família e vizinhos voltarem mortos. Todos querem que os soldados voltem para casa vivos e todos nós precisamos estender as mãos e fazer com que suas famílias saibam disso.
Infelizmente, Bush e companhia ainda não estão satisfeitos. Essa invasão e conquista irá encorajá-los a fazer isso de novo em outro lugar. O motivo verdadeiro para essa guerra é dizer ao resto do mundo “Não se meta com o Texas — se você tem o que queremos, vamos aí pegar!” Esse não é um tempo para que a maioria de nós que acredita numa América pacífica fique calada. Façam com que suas vozes sejam ouvidas. Apesar do que eles conseguiram fazer, este ainda é o nosso país.
Sinceramente,
Michael Moore.
6.4.03
Os dois Islãs
Ali Kamel
Najaf, Kufa, Basra e Karbala. O mundo inteiro passou a conhecer o nome dessas cidades, mais antigas do que Bagdá. Hoje cenário onde se desenrola a guerra de americanos e ingleses contra o Iraque de Saddam Hussein, elas também foram o palco de guerras que estabeleceram já nos primeiros anos do islamismo a separação entre sunitas e xiitas.
Maomé recebeu a primeira revelação aos 40 anos. Nos três primeiros anos, o Profeta contou sobre as mensagens que recebia do Arcanjo Gabriel apenas à sua família: a mulher Khadija e o primo Ali. Depois desse curto período, Maomé começou a sua pregação pública, que durou até o momento em que a revelação se encerrou, 23 anos depois, com a sua morte. O conjunto das revelações forma o Alcorão que, como muitos já sabem, respeita os livros sagrados anteriormente revelados (Torá e Evangelhos), mas faz deles uma releitura. Nele está toda a linhagem de profetas e personagens bíblicos, como Adão e Eva, Noé, Abraão, Moisés, Jesus.
Quando Maomé morreu, teve início um período de 28 anos durante o qual, pouco a pouco, foi se formando uma profunda divisão no seio do islamismo. Segundo os sunitas, o Profeta jamais indicou quem seria o seu sucessor (“califa”, em árabe); segundo os xiitas, Maomé teria deixado claro que o sucessor seria seu primo Ali, a quem tinha dado sua filha Fátima como esposa. Tradições aceitas pelos dois lados dão conta de que Maomé, por diversas vezes, demonstrou seu imenso amor e admiração por Ali, a quem considerava um bravo guerreiro, um juiz justo, o mais caridoso dos homens, o mais generoso, o mais sábio. "Eu sou a cidade do conhecimento e Ali é o portão dessa cidade", disse Maomé.
Para os xiitas, isso era a prova de que o profeta indicara Ali para sucedê-lo; para os sunitas, os ditos do Profeta expressavam tão somente a admiração pelo homem Ali. Morto o Profeta, enquanto Ali estava preparando o corpo para o sepultamento, a comunidade se reuniu e escolheu para califa Abu Bakr, o primeiro homem, fora da família de Maomé, a tornar-se muçulmano. Os partidários de Ali levaram um choque, mas ele, primo e genro do Profeta, não fez qualquer reivindicação (a palavra xiita vem exatamente de "shiit al Ali", que quer dizer "os partidários de Ali"). A Abu Bakr, sucederam Omar e, depois, Osman, ambos assassinados. Ali, então, foi aclamado por todos como o quarto califa. A exceção foi o governador da Síria, Muawiya, sobrinho de Osman, que não aceitou Ali, acusando-o de não ter se esforçado para punir os assassinos do tio.
A habilidade política não era o forte de Ali, mais atento às questões da religião, o que, pouco a pouco, criou contra ele um ambiente hostil. Tão logo assumiu, ele se pôs a endireitar tudo o que considerava que os seus predecessores tinham feito de errado, condenando, em governadores indicados por Osman, os excessos de luxo, o uso do álcool, a desatenção pelo povo.
Trocou a sede do governo de Medina, na Arábia, para Kufa, no atual Iraque. Logo no início de seu califado, Ali teve de enfrentar, em Basra, uma campanha contra ele, dirigida por Aishia, uma das viúvas de Maomé, e por três antigos companheiros do Profeta, que se sentiram preteridos na sua eleição. O exército de Ali se saiu vitorioso, e os três foram mortos; Aishia foi poupada por seus laços com Maomé. O governador da Síria, contudo, reuniu aliados e travou uma batalha contra Ali, mais dura do que a liderada por Aishia. A batalha foi inconclusiva e, naqueles momentos de incerteza, Ali sofreu um atentado praticado por aliados de Muawiya, tendo morrido dois dias depois. Segundo a tradição, foi enterrado em Najaf, onde se construiu uma mesquita, que leva o seu nome, no interior da qual está o seu túmulo.
Com a morte de Ali, a divisão entre sunitas e xiitas consolidou-se. Os sunitas, maioria, acreditam que a revelação acabou com a morte de Maomé. O que resta a fazer é viver como o Alcorão manda, seguir a Suna (tudo o que o Profeta fez e disse, origem do termo sunita), e esperar o final dos tempos. Mesmo entre eles, há matizes e sub-grupos: são quatro as escolas teológicas sunitas, sem falar na "reforma" ultra-radical wahhabista do século XVIII, seita hoje majoritária na Arábia Saudita (são de matiz wahhabista os grupos de Bin Laden, Hamas, Jihad Islâmica).
Para os xiitas, a revelação de fato acabou com a morte de Maomé, mas há nela significados ocultos a que só têm acesso o Imã (“aquele que vai à frente”, guia espiritual, representante de Deus). Para eles, é impossível que a Terra fique sem um Imã (hoje, essa designação é usada também, apenas honorificamente, por alguns líderes religiosos). O primeiro Imã foi Adão, numa seqüência até Jesus e Maomé, depois do qual só poderiam ser Imãs os da família do profeta, apenas na descendência de Ali e Fátima. Assim, Ali foi o primeiro Imã e seu filho, Hasan, o segundo; ao abdicar, foi sucedido pelo seu irmão Hussein, cujo martírio em Karbala marcou profundamente a história do xiismo.
Os Imãs foram se sucedendo, num processo que deu origem a muitas seitas, surgidas a cada vez que um Imã morria: ora um sucessor não era aceito, ora alguém se rebelava e se dizia ele próprio o Imã. A mais poderosa corrente xiita é maioria no Irã e no Iraque e são conhecidos como os xiitas dos 12 Imãs, o último deles um Imã oculto, vivo até hoje. Quando o décimo primeiro morreu, no século XI, seu único filho era um menino de 5 anos. Por medida de segurança, ele só falava aos fiéis através de porta-vozes que, antes de morrer, nomeavam um sucessor: foram quatro, até que o último anunciou que morreria e que, depois dele, não haveria mais porta-vozes e que o Imã permaneceria vivo para sempre, embora oculto. No final dos tempos, este Imã aparecerá e travará uma luta contra as forças do mal, que serão derrotadas. Ele governará a Terra por alguns anos, e, depois, retornarão Jesus, Maomé, Ali, todos os Imãs e profetas e finalmente Deus, para o Dia do Juízo Final. Os sunitas não acreditam, claro, no Imã oculto, mas compartilham a crença na volta de Jesus e no dia do Juízo Final.
Naturalmente, a fé dos xiitas sempre despertou a ira dos sunitas, que os acusam de politeístas, porque cultuam santos e mártires (alguns sunitas chegam a dizer que os xiitas divinizaram a figura de Ali).
Sunitas ou xiitas, contudo, todos são muçulmanos, acreditam no Deus único e no Alcorão como tendo sido revelado a Maomé. Ambas as correntes compartilham de uma profunda religiosidade, e todos se sentem parte do islamismo, que quer dizer "submissão voluntária à vontade de Deus". Islã é uma palavra que, em árabe, tem a mesma raiz de “paz”. É mesmo uma lástima que os grupos radicais de ambos os lados contribuam para que, no mundo de hoje, o islamismo tenha, para muitos, uma imagem de violência.
O próximo alvo
Ali Kamel
Estudos da Organização Mundial de Saúde sobre suicídio mostram que, considerando-se os países segundo as religiões neles majoritárias, as menores taxas se encontram em nações de maioria muçulmana. É um dado eloqüente. No Alcorão, como em outras religiões, a condenação ao suicídio é de fato explícita: “Ó fiéis, não cometais suicídio, porque Deus é Misericordioso para convosco. Aquele que tal fizer, perversamente e de forma iníqua, introduzi-lo-emos no fogo infernal, porque isso é fácil a Deus” (quarta surata, versículos 29 e 30).
Contraditoriamente, porém, de 1983 a 2000, foram 275 atentados suicidas, cometidos por 15 organizações islâmicas em 12 países. Os alvos eram americanos, europeus e, principalmente, israelenses. Como isso pode acontecer? É uma questão de semântica. Como em todas as religiões, também no islamismo aquele que morre em defesa de sua fé é considerado um santo, tem lugar na eternidade, como os primeiros mártires cristãos, por exemplo.
É a isso que o Alcorão se refere: “E não creiais que aqueles que sucumbiram pela causa de Deus estejam mortos; ao contrário, vivem, agraciados, ao lado do seu Senhor. Estão jubilosos por tudo quanto Deus lhes concedeu da Sua graça” (surata terceira, versículos 169 e 170). O que os terroristas fazem é isso: em vez de chamar o suicida pelo que são, chamam-no de mártir e dizem que ele morreu em defesa da religião, o que não é fato. Pronto, o Paraíso está garantido, a face de Deus será vista e haverá 72 virgens a servir o mártir.
Foram os xiitas que reintroduziram a prática do ataque suicida, adormecida desde o século XIII, com o fim da seita dos Hashshashin (no século XVIII, houve surtos em Sumatra e Filipinas). O primeiro ataque contemporâneo aconteceu em 1983, no Líbano, quando o xiita Hezbollah atacou a Embaixada dos EUA. Na época, o líder xiita do Líbano, xeque Muhammad Husein Fadlallah, manifestou reservas contra essa prática, o que levou o grupo a tentar, com êxito, respaldo no Irã. Após a vitória sobre Israel, o Hezbollah diminuiu o número de atentados, mas, em 1993, os sunitas ultra-radicais Hamas e Jihad Islâmica começaram os ataques a Israel. A al-Qaeda foi o último grupo a entrar na arena, em 1998, contra os EUA. A legitimá-los, os sauditas. Em 1989, o xeque Abd al-Aziz Bin Baz, já falecido, mas então a mais alta autoridade islâmica da Arábia Saudita, classificou como uma guerra santa a luta dos palestinos contra Israel, o que abria caminho para que os suicidas fossem considerados mártires combatentes. E, em meados dos anos 90, o xeque Muhammad Bin ‘Uthaimin, outra alta autoridade islâmica saudita, abençoou os ataques suicidas do Hamas. A comunhão de idéias entre esses grupos, xiitas e sunitas, mostra como os interesses políticos tornam os homens mais pragmáticos: Bin Laden é um ultra-ortodoxo (wahhabista), desses que, se apertam a mão de um xiita antes das orações, sentem-se obrigados a fazer as abluções rituais novamente. Se o assunto é homem-bomba, porém, eles se entendem.
O perfil dos homens-bomba joga luz sobre as causas do fenômeno: são jovens, têm entre 18 e 27 anos, solteiros, desempregados, de famílias pobres, com o secundário completo e freqüentam escolas religiosas financiadas pelo Hamas, que tem uma rede de centros educacionais e de caridade. Tornar-se um homem-bomba dá prestígio e dinheiro à família do morto (Saddam costumava anunciar prêmios de US$ 25 mil dólares).
O mundo pode contribuir para o fim do fenômeno apoiando, verdadeiramente, a criação de um Estado palestino — essa luta é a origem de todo o ódio. E, como os muçulmanos radicais são religiosos mas não fazem milagres (não multiplicam o dinheiro), o remédio a ser aplicado pelas nações árabes deveria ser o clássico: cortar as fontes de financiamento, reprimir as lideranças, e, fundamentalmente, implementar políticas que tirem os árabes da miséria e levem democracia a eles. Nada disso é contra a alma do muçulmano, pois um terço do Alcorão é dedicado a louvar as virtudes da razão e do conhecimento. Mas os ditadores da região acreditam que podem passar despercebidos de seus próprios povos se alimentarem o ódio a Israel e apoiarem os homens-bomba. É uma ilusão: eles serão o próximo alvo.
Haxixe e o homem bomba
Ali Kamel
Semana passada, o Arnaldo Jabor saiu-se com a seguinte tirada na TV Globo: “Sabem por que aquela bomba gigante chama-se a mãe de todas as bombas? Porque vai gerar milhares de homens-bomba”. Parecia profecia, porque, já no dia seguinte, um militar suicida iraquiano explodiu o carro em que estava, matando quatro soldados americanos. E o ministro das Relações Exteriores do Iraque, o cristão Tarik Aziz, deu as boas-vindas a quatro mil homens-bombas que teriam chegado ao Iraque para combater os EUA. Tudo isso me fez pensar que fenômeno leva alguém a se matar para matar outras pessoas.
A mesma pergunta se fizeram os muçulmanos do século XI quando pela primeira vez o fenômeno irrompeu naqueles lados do mundo, pelas mãos de uma seita que se dizia também muçulmana. E, diante da loucura do expediente, que contrariava todos os ensinamentos do Alcorão, a resposta encontrada foi uma só: haxixe, eles só podiam fazer aquela loucura drogados. Nunca se provou a tese, mas os muçulmanos apelidaram os adeptos daquele método de os "Hashshashin" (os que fumam haxixe), palavra que entrou em muitas línguas como “assassinos”.
Os suicidas pertenciam a uma seita fundada, em 1090, por Hassan e-Sabbah, um persa xiita que tomou a si o projeto de restabelecer o califado, restituindo-lhe a glória como no tempo do Profeta. O mundo islâmico, no ano de seu nascimento, em 1048, era xiita: desde 932, um poderoso grupo xiita, os Buwayhidas, dominava Bagdá e ditava suas leis ao próprio califa, que era sunita. No Egito, um outro grupo xiita, os fatímidas, chefiava um segundo califado.
Mas as coisas logo começaram a mudar. Em 1055, os turcos seldjúcidas, sunitas, invadiram Bagdá, perseguindo os xiitas e fazendo prevalecer a crença sunita (o califa continuou a ser uma figura decorativa, sem poder real). Anos depois, no Egito, o califa xiita também passou a ser uma marionete nas mãos do seu vizir armênio. Hassan quis pôr um fim a isso, aliando-se a Nizar, o filho mais velho do califa do Egito. Seu plano? Ataques suicidas contra seus oponentes.
O crime devia acontecer à luz do dia, no lugar mais movimentado da cidade, de preferência numa mesquita bem cheia durante as orações de sexta-feira. Para que o ato tivesse ampla repercussão e provocasse medo. O primeiro crime aconteceu em 1092 e teve como alvo ninguém menos do que Nizam el-Mulk, o vizir turco que durante trinta anos organizara o poder sunita.
Ele foi assassinado por um adepto de Hasan em 14 de outubro de 1092. Apesar do sucesso da empreitada, o plano de restituir a glória ao califado fracassou, pois Nizar, o filho do antigo califa xiita, não conseguiu tomar o poder no Egito e foi emparedado vivo. Hasan não desistiu, porém. Ele organizou cada vez mais a sua seita com o objetivo de destruir seus oponentes sunitas. Seus crimes seguiram sempre a mesma técnica suicida: seus adeptos disfarçavam-se como pessoas comuns, pedintes, mercadores, crentes e, quando a vítima passava à sua frente, enfiavam-lhes a adaga até que morressem. Faziam isso sabendo que seriam mortos imediatamente, pois agiam sozinhos, sem possibilidade de defesa. Mas tinham sempre um sorriso nos lábios, porque acreditavam piamente em tudo o que Hasan lhes dizia: não morrerão, mas entrarão direto no paraíso, terão autorização para ver a face de Deus, disporão dos serviços de 72 virgens e poderão indicar outros setenta parentes para que entrem também no paraíso. A seita aterrorizou o Oriente Médio por mais de 150 anos, tutelou, pelo terror, muitos emires, até serem exterminados de vez pelos mongóis e sultões mamelucos.
De vez? Bem o método deles ressurgiu em 1983, no Líbano e, agora, ironia da História, seus adeptos vivem o seu ápice com a al- Qaeda, de Osama bin Laden, e seus congêneres do grupo Hamas e Jihad Islâmica, todos ultra-ordoxos sunitas, os inimigos contra os quais se batia a seita de Hasan e-Sabah.
Como uma crença da Idade Média pode ser revivida em pleno século XXI é assunto para outro artigo.
