25.4.03

Estupidez
Luis Fernando Veríssimo

Estou neste ofício de escrever, assinar e publicar o que eu penso há mais de 30 anos. Comecei no ano de 69 — do século XX, minha senhora — quando a gente precisava dizer, ou tentar dizer, mais nas entrelinhas do que nas linhas, e ter sempre à mão a tradicional crônica sobre o sexo dos anjos para substituir a que não deixavam sair. Não posso me queixar: enquanto havia jornalistas sendo presos e torturados pelas suas opiniões, eu e outros só sofríamos o incômodo de ter que dissimulá-las. Com o fim da censura oficial, o risco de ser punido por ter sido entendido bem demais foi substituído pelo risco de ser mal-entendido, mas aí a culpa era só do cronista e da sua falta de clareza, e a única punição a censura do leitor.

Em mais de 30 anos dando palpites, dei muitos errados, me contradisse e fui pouco claro de várias maneiras. Já me chamaram de fã do Saddam Hussein e de americanófilo, de comunista e de agente da CIA, de pseudopopulista e de elitista, até de mau colorado. Mas confesso que uma coisa que nunca imaginei foi um dia ser chamado de anti-semita.

Não é um epíteto que se lance, ou que se receba, como apenas outra ofensa gratuita. O anti-semitismo não é só sinônimo de estupidez, como qualquer preconceito. É uma estupidez com uma história específica, dois mil anos de obscurantismo e desumanidade, um aleijão da civilização ocidental que culminou nos campos de extermínio nazistas. Não se chama alguém de anti-semita sem pesar todas as inferências da acusação, sem pensar no que se está realmente dizendo do acusado. No caso, invocar a minha história familiar e as minhas afinidades culturais seria uma defesa irrelevante: minha posição quanto à questão do Oriente Médio é a mesma de muitos amigos judeus, de organizações judaicas como a Congregação Israelita Paulista, que no mês que vem trará Shimon Peres e o palestino Saeb Erekat a São Paulo para discutir o que os moderados podem fazer pela pacificação da região, de intelectuais judeus no Brasil e no resto do mundo, de jornais como o maior de Israel, o “Haaretz” e, obviamente, da oposição à direita dentro de Israel. Pelo estranho raciocínio que equipara críticas à política intransigente, tão radical quanto a dos radicais do outro lado, de um governo — transitório como todos os governos numa democracia — a aversão a uma etnia inteira, todos estes deveriam ser chamados de anti-semitas. Quando o seu empenho, mais do que o dos radicais, é pela paz e a segurança de Israel.

Infelizmente, está se tornando um hábito entre nós responder a opiniões que desagradam não com outras opiniões, mas com a difamação.